El Niño pode encarecer a alimentação: veja o impacto no seu bolso

Cartão de capa do Bolso Coberto com a manchete: El Niño pode encarecer a alimentação: veja o impacto no seu bolso. No seu bolso: Entenda como a alta de até 19,9% nos alimentos in natura afeta o seu orçamento mensal.

O fenômeno climático El Niño pode encarecer a alimentação no domicílio em até 6,32% em caso de intensidade forte, segundo projeções do banco Rabobank. Esse aumento pressiona o orçamento das famílias brasileiras e exige planejamento financeiro para evitar o endividamento com despesas básicas do dia a dia.

O que muda no seu bolso

  • Quem recebe salário mínimo: Sentirá o impacto direto da alta de até 6,32% na alimentação no domicílio, reduzindo o poder de compra mensal.
  • Quem tem dívida no cartão: Enfrentará juros altos por mais tempo, pois a pressão inflacionária de até 0,83 ponto no IPCA mantém a Selic elevada.
  • Quem tem reserva no CDB: Verá o ganho real da aplicação diminuir com o avanço da inflação dos alimentos durante o período do fenômeno.

O que é e como funciona o El Niño

O El Niño é um fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Esse aquecimento altera os padrões de chuva e temperatura em diversas regiões do planeta, inclusive no Brasil, afetando diretamente a produção agrícola.

Para medir a intensidade desse fenômeno, os cientistas utilizam o Índice Oceânico Niño, que calcula a média de temperatura das águas em um período de três meses. De acordo com o Rabobank, o funcionamento e a classificação do fenômeno ocorrem da seguinte forma:

  • El Niño moderado: caracterizado por valores superiores a 0,5°C na média de três meses do Índice Oceânico Niño.
  • El Niño forte: caracterizado por valores acima de 1°C na média de três meses do Índice Oceânico Niño.

Essas mudanças de temperatura no oceano mudam o clima na terra. Em algumas regiões agrícolas, ocorrem secas severas; em outras, chuvas excessivas. O resultado direto é a perda de safras, a redução da oferta de alimentos no mercado e, consequentemente, a alta dos preços para o consumidor final.

Quanto custa na prática e o impacto no bolso

O impacto financeiro do El Niño varia conforme a intensidade do fenômeno. A Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) divulgou em agosto as seguintes probabilidades de ocorrência para o período:

  • Probabilidade de El Niño moderado: 26% em agosto.
  • Probabilidade de El Niño forte: 57% em agosto, com projeções indicando cerca de 80% de probabilidade de ocorrência de um El Niño forte para o fim do ano.
  • Probabilidade de El Niño muito forte: 16% em agosto.

Para entender como isso mexe com o seu dinheiro, veja as projeções de aumento de preços calculadas pelo Rabobank para cada cenário:

Cenário 1: El Niño Moderado

Nesta simulação, os preços sobem de forma mais contida, mas ainda geram impacto na inflação oficial, medida pelo IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo):

  • Alimentos in natura (frutas, legumes e verduras): alta de 13,4%, acrescentando cerca de 0,36 ponto percentual à inflação geral acumulada de 12 meses.
  • Alimentos semi-elaborados (carnes, leite, arroz): alta de 0,27%.
  • Alimentos industrializados: alta de 0,5%.
  • Alimentação no domicílio: avanço total de 2%.
  • Impacto total no IPCA: acréscimo de cerca de 0,41 ponto percentual.

Cenário 2: El Niño Forte

Se o cenário de 80% de probabilidade para o fim do ano se confirmar, o impacto é significativamente maior:

  • Alimentos in natura: alta de 19,9%, acrescentando cerca de 0,53 ponto percentual ao IPCA.
  • Alimentos semi-elaborados: alta de 3,6%, acrescentando 0,20 ponto percentual ao IPCA.
  • Alimentos industrializados: alta de 1,4%, acrescentando 0,11 ponto percentual ao IPCA.
  • Alimentação no domicílio: avanço total de 6,32%.
  • Impacto total no IPCA: acréscimo de cerca de 0,83 ponto percentual.

Como isso afeta quem vive de salário

Para traduzir esses percentuais para a realidade financeira, veja o efeito prático para três perfis de trabalhadores brasileiros, considerando o IPCA acumulado em 12 meses de 4,44% até 01/07/2026:

1. Quem recebe salário mínimo: Para quem recebe o piso nacional e compromete boa parte da renda com supermercado, o impacto é imediato. Se uma família gasta R$ 600 por mês com alimentação no domicílio, a alta de 6,32% no El Niño forte representa um custo extra de R$ 37,92 por mês (R$ 455,04 por ano). Para quem vive com o salário mínimo, esse valor faz falta para pagar contas básicas de consumo.

2. Quem tem dívida no cartão de crédito: Com a inflação geral pressionada pelo El Niño (acréscimo de até 0,83 ponto percentual no IPCA), o Banco Central tende a manter a taxa básica de juros (Selic meta, que está em 14,00% ao ano em 16/09/2026) em patamares elevados. Para quem tem dívida no cartão de crédito, isso significa que os juros cobrados pelos bancos continuarão muito altos, dificultando a renegociação e o pagamento do saldo devedor.

3. Quem tem reserva financeira no CDB: Para quem tem, por exemplo, R$ 10.000 aplicados em um CDB que rende 100% do CDI (com o CDI anualizado em 0,83% em 01/08/2026), o rendimento nominal da aplicação continua baixo. Se a inflação dos alimentos sobe e puxa o IPCA para cima, o ganho real dessa reserva financeira diminui, reduzindo o poder de compra do dinheiro guardado para emergências.

Comparativo de cenários do El Niño

Categoria de Alimento Alta no Cenário Moderado (%) Impacto no IPCA (Moderado) Alta no Cenário Forte (%) Impacto no IPCA (Forte)
In natura 13,4% 0,36 ponto 19,9% 0,53 ponto
Semi-elaborados 0,27% Não disponível 3,6% 0,20 ponto
Industrializados 0,5% Não disponível 1,4% 0,11 ponto
Alimentação no domicílio 2,0% Total: 0,41 ponto 6,32% Total: 0,83 ponto

Passo a passo para proteger seu bolso da inflação dos alimentos

  1. Substitua os produtos in natura: Como os alimentos in natura podem subir até 19,9% no cenário forte, troque itens que estão muito caros por opções da estação ou por alimentos congelados e conservas que sofrem menor variação de preço.
  2. Ajuste a frequência de compras: Em períodos de alta de preços, faça compras menores e semanais para itens frescos. Isso evita o desperdício de alimentos que estragam rápido e custam caro.
  3. Revise o orçamento doméstico: Diante de uma possível alta de 6,32% na alimentação em domicílio, reduza temporariamente despesas supérfluas para garantir que o dinheiro do supermercado não falte.
  4. Acompanhe os índices de inflação: Monitore o IPCA e as notícias sobre o clima para antecipar períodos de entressafra e estocar itens não perecíveis quando encontrar promoções.

Erros que custam caro no planejamento de compras

  • Ignorar as marcas próprias dos supermercados: Deixar de comprar marcas menos conhecidas ou próprias do estabelecimento pode custar até 30% mais caro no carrinho de compras mensal, sem perda de qualidade.
  • Fazer compras sem uma lista definida: Ir ao supermercado sem planejamento faz você comprar por impulso. Isso costuma elevar o valor da conta final em mais de 15% devido a itens desnecessários.
  • Não pesquisar preços entre estabelecimentos: Comprar tudo no mesmo local por comodidade impede você de aproveitar promoções. A diferença de preço de um mesmo produto hortifrúti entre redes pode superar os 20%.
  • Desperdiçar alimentos em casa: Comprar produtos in natura em excesso e deixá-los estragar na geladeira joga dinheiro direto no lixo, agravando o impacto da alta de até 19,9% projetada para esses itens.

Os números do dia, direto do Banco Central

  • Selic meta em 14,00% ao ano (16/09/2026)
  • CDI anualizado em 0,83% (01/08/2026)
  • IPCA acumulado em 12 meses: 4,44% (01/07/2026)
  • Dólar comercial a R$ 5,15 (25/08/2026)
  • Juro real da Selic: 9,15% ao ano
Quanto rende em 12 meses com CDI a 0,83% ao ano (referência de 01/08/2026). Cálculo do Bolso Coberto.
Valor aplicado CDB 100% do CDI (líquido de IR) LCI/LCA 90% do CDI (isento) Poupança
R$ 1.000,00 R$ 6,85 R$ 7,47 R$ 61,68
R$ 10.000,00 R$ 68,47 R$ 74,70 R$ 616,78
R$ 100.000,00 R$ 684,75 R$ 747,00 R$ 6.167,78

Rendimento no primeiro ano, sem aportes. CDB considera IR de 17,5% para aplicações acima de 360 dias. LCI/LCA são isentas de IR para pessoa física. Poupança segue a regra de 0,5% ao mês mais TR enquanto a Selic supera 8,5% ao ano. Rentabilidade passada não garante resultado futuro.

Perguntas frequentes

Qual é o impacto do El Niño forte na alimentação?

No cenário de El Niño forte, os alimentos in natura podem subir até 19,9% e a alimentação no domicílio pode avançar 6,32%, segundo dados do Rabobank.

Como o El Niño afeta a inflação oficial (IPCA)?

O El Niño forte pode acrescentar cerca de 0,83 ponto percentual ao IPCA, enquanto o cenário moderado pode acrescentar cerca de 0,41 ponto percentual.

Dados e referências

  • Rabobank
  • Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos

Apuração a partir de material publicado por g1. O texto acima é original do Bolso Coberto.

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